Friday, July 03, 2009

"PASSARINHÓLOGO"

Só para não dizer que abandonei o blog, postarei uma auto-propaganda aqui: amanhã, 4 de julho, a matéria de capa da Folhinha é de minha autoria. O tema é a observação de aves. É todo um universo que eu desconhecia. (Tem gente que leva isso bem a sério. Na Inglaterra, por exemplo, um blog de "birders" - como também são chamados os observadores de aves - divulgou a notícia de que um pássaro raro havia aparecido no quintal de uma casa e em cinco minutos apareceram dezenas de observadores por ali, assustando o morador, que não sabia a razão de tantos desconhecidos ocuparem seu quintal).

Na matéria, acompanhei um grupo de crianças que nunca tinha participado da observação de aves, guiadas por um biólogo, e fomos procurar pássaros no Parque Villa Lobos, em São Paulo, munidos de binóculos, gravador e câmera de foto. Foi um programa inusitado e divertido.

Conversei também com crianças que são birdwatchers há algum tempo e com fotógrafos, biólogos e observadores de aves "profissionais". Eles deram dicas para quem quer se iniciar nessa atividade, que torna mais gostosa qualquer caminhada ao ar livre.

No blog da Folhinha, complementando a matéria, ensinamos passo a passo a fazer um ninho de joão-de-barro.

Sunday, May 17, 2009

"UM DIA QUALQUER"
(às 4h da manhã o nonsense ganha sentido)


Eram quatro da manhã e o sol ainda não surgira.

Resolveu tomar um banho antes da corrida matinal, assim a energia se diluía um pouco. Apressado pelo inverno, duchou-se sem delongas no banheiro que logo virou sauna.

Saiu deixando pegadas no apartamento e, ao passar pela sala cor-de-rosa-e-cravo, percebeu-a vazia - mas o estojo sobre a mesa era azul.

Faltavam setenta minutos para o horário de trabalho e agia aos tropeções. Já não havia remédio, para ele a pressa sempre fazia sentido. Mesmo aos domingos.

Vestiu meio uniforme e trancou a porta por dentro com trinta e quatro voltas. No hall, em frente ao elevador, contou os números cor vermelho-lento: 1, 2, 3... Empurrou a porta sem olhar e deu de cara com o chão. Morreu 1, 2, 3 segundos depois.

Acordou com a maior dor de cabeça de sua vida.

Tuesday, March 31, 2009

“100% UAI”
(escrito em 29 de março de 2009)


“Sou do mundo, sou Minas Gerais”, diz aquela canção do Lô Borges. E, realmente, como tem mineiro espalhado pelo mundo! Mas é inevitável: pra onde vamos, levamos nossas raízes e nossa mineiridade.

Morei dois anos em Cuba estudando cinema. Demorei três meses para derramar a primeira lágrima. Não foi por saudade, pela comida gordurosa, a falta de luxo ou a solidão da nova terra. Foi por ouvir Clube da Esquina tocando num bar em Havana.

Ontem fui ao show do Toninho Horta. O SESC São Paulo (que tem sempre uma programação maravilhosa e a preços reduzidos) está realizando, entre março e abril deste ano, o projeto “Nas minas da música”, uma homenagem aos 30 anos do Clube da Esquina. Shows, vídeos, lançamento de livro e bate-papo sobre o tema têm lugar em várias unidades do SESC.

Quando escutei “Vocêeeeee pega o trem azul” no show do Toninho (que achou o evento “Bom demaisssss”), eu realmente peguei um trem na minha cabeça e voltei lá pra Minas. Sou de Belo Horizonte e ali morei até os 20. Vivo em São Paulo há seis anos e ontem percebi que é na interseção entre SP e MG que me sinto confortável. Tudo o que nesta metrópole se distancia de Belo Horizonte - os edifícios gigantes, as ruas movimentadas mesmo à 1 da manhã de terça-feira, as mega livrarias e ruas especializadas em tudo, os famosos engarrafamentos, o metrô, o R do sotaque paulistano, a “média” na padaria - faz com que eu me sinta estrangeira. Mas quando vejo um show num teatro pequeno e aconchegante, quando como pão de queijo num boteco, quando caminho pelas praças - enfim, nas esquinas entre São Paulo e Belzonte, - é que me sinto em casa.

Hoje me lembro com graça de quando cheguei aqui (numa cidade onde nunca imaginei morar)," ô, da roça". Como em BH o metrô liga nada a lugar nenhum (pra se ter uma idéia, conhecer o metrô era uma das excursões que minha escola primária fazia), lá eu só andava de ônibus. Passei vergonha ao chegar aqui e me ver forçando a roleta do metrô, sem conseguir entrar. Até que me mostraram a setinha proibindo a passagem, e eu, tão vermelha quanto a seta, me encaminhei para a verde.

Ou quando me surpreendi nos restaurantes com leitura magnética do cardápio. “Modernoso!!”

Ou quando a Crocodila Dundee aqui achou que estava sendo roubada ao sentar-se um valet ao meu lado no carro, para estacioná-lo (vim pra cá quando esse sistema era ainda iniciante em BH. Só mesmo nos lugares mais chiques). Lembro que coloquei a mão na maçaneta, preparada para saltar do veículo, e achei muitíssimo estranho o ladrão me dar um “boa noite” tão sorridente.

O pessoal de BH, da área de cinema, não gostou muito da minha saída. Diziam que eu estava “abandonando o barco” e até hoje me repreendem quando elogio minha cidade natal (como se ter mudado de lá me fizesse gostar menos da cidade). Acho um pensamento medieval e procuro não dar muita importância. Saí por motivos pessoais e profissionais, e isso não me impede de sentir saudades do “lado bom da cidade”, dos amigos queridos e da sensação de acolhimento que a cidade natal costuma nos trazer.

Como muita gente, vim pra cá em busca de desafios, preferindo ser um peixinho num mar do que um tubarão num aquário. Hoje percebo que saí cedo demais, a competição no mercado audiovisual aqui é braba e eu fui forçada a bater muita perna pra não "naufragar", e isso sem casa de pai e mãe, sem colo de amigo, com poucos contatos de trabalho. Demorei a entrar, mas agora fica difícil querer sair. SP - e os paulistanos - realmente abrem os braços pra quem vem de fora.

Especialmente mineiro, que é visto com simpatia onde quer que vá. Morei no Rio, onde os cariocas me falavam mal de São Paulo. Vim pra São Paulo, e o que mais tinha era paulistano falando mal de carioca. E a gente ali, mantendo a fama de em cima do muro.


Não sou uma apaixonada por São Paulo, mas tenho o ritmo da cidade. Sempre gostei de mudanças, morei em vários lugares mas em SP eu consigo não cair no tédio sem precisar trocar de paisagem. Mas há que se tomar cuidado com a correria. “As pessoas conversam andando, de tanta pressa”, observou um transeunte, quase atropelado por uma velhinha que descia a Augusta recortando caminho entre as pessoas e gritando “Geração tartaruga!”

Pra desestressar, os paulistanos têm a praia (porém na volta enfrentam um trânsito capaz de jogar a paz por água abaixo).

Aqui é realmente a terra das oportunidades, repetem os taxistas. Mas são os mesmos que vivem dizendo querer voltar pra sua cidade. As pessoas vêm aqui pra ganhar dinheiro e depois tudo o que querem é usá-lo pra voltar às origens, vai entender.

E, na capital dos negócios, multiplicam-se academias de yoga, e consultórios psiquiátricos e centros budistas. Aqui temos que saber dizer não ou ganhamos dinheiro sem ter tempo para gastá-lo. Alguns preferem ver os cofrinhos engordando enquanto imaginam o futuro próspero - sem perceber que os verdes anos vão passando em branco...

Em SP aprendi a usar guarda-chuva, percebi que um mesmo dia pode ter as 4 estações do ano, aprendi a sair de 2a a 2a e a enfrentar fila sem estressar.

Quanto aos paulistanos, vivem reclamando da cidade, planejando pra onde irão se mudar no futuro próximo, mas continuam morando aqui. É difícil sair de um lugar onde você tem tudo à mão, num conforto viciante.

Reza a lenda que amigo paulistano é pra toda vida, e assim espero. Embora curiosamente a maioria dos meus amigos aqui sejam mineiros que só vim conhecer em São Paulo. Não sei se por morarmos cercados por montanhas ficamos imantados e aqui damos um jeitinho de nos encontrar. E, ao ouvir o sotaque, um mineiro logo abre um sorrisão pro outro. A afinidade é imediata e vale mais do que torcer pro mesmo time de futebol ou mesma escola de samba.

A gente se entende melhor. Nem precisa abrir a boca pra dizer “sô” ou “uai”, é só se olhar e revelar a cumplicidade de quem viu o mundo por um mesmo quadrante.

Já morei em Cuba, Espanha, Rio, mas a mineiridade me acompanha. Quem me conhece logo percebe a diferença entre mim e uma paulistana. E não falo apenas do sotaque, que teima em ficar (e, dizem, se intensifica quando falo ao telefone com algum mineiro), mas sobretudo pela minha visão de mundo e a forma como o ocupo (o cuidado com os outros, a contação de causos, o acanhamento, a discrição, a cerimônia, a relação com a família, o gosto por cozinhar para os amigos, as caras e bocas). Sem contar que nos meus textos carrego Minas Gerais inteira (meus dois únicos roteiros de longa escritos se passam em Minas), e em cada diálogo.

Mas, sabem, depois de ouvir um amigo me contar com uma falsa euforia o fato de estar “solto” no mundo, de não ter família, amigos, cidade que o prendam, e ainda percebendo a tristeza e a solidão que seu discurso escondia, eu quero mais é celebrar minhas raízes e deixar que elas se estendam por onde eu me enveredar, levando e deixando um pouco de mim pelo caminho.

PS: Sobre a hospitalidade dos paulistanos, também há os da contra-mão. Um amigo criou o movimento "Voltem" (rs), indignado com os mineiros que ganham editais do audiovisual em SP, tomando o lugar dos paulistas. Se ele lesse este texto, talvez começasse a discretamente celebrar uma iminente vitória do movimento. Mas que ele não se engane: é apenas o velho e bom saudosismo pós-show de música mineira da boa.

Saturday, March 14, 2009

"AUTO-PRESENTE"
(Escrito em 14 de março de 2009, nos meus 30 anos menos doze dias)

Foi quando ela passou as folhas e lambeu os dedos. Achou melhor que o livro.

Nunca reparara nas linhas que a desenham. Lapidações exclusivas e desperdiçadas. Nenhum terceiro para admirar.

Era uma hora morta entre o arremate e o latente. Ela correu os olhos pelo breve espaço a ser ocupado. Uma ansiedade sem porquê estava sempre tocando-lhe os ombros e lembrando que existem agenda relógio calendário.

Então ela parou tudo. Só o barulho que faz o coração. Ele não para, mas ela morre por um segundo. Pelo tempo da reflexão.

Arriscou abrir um olho. Depois o outro (nunca se perguntara por que dois). De onde estava, podia ver a ponta dos pés. Um dedo torto, outro simpático. Como velhos conhecidos, nunca antes detalhados.

Ela não costuma carregar espelhos para se acompanhar pelo mundo, os outros é que sabem do seu balanço pelo cotidiano. Mas ela não é só fora. Ela não é só dentro. Poderia, sim, perguntar a amigos “quem sou eu”, mas as respostas viriam sob filtros imprecisos. Restou-lhe, então, adivinhar parte dela.

Tocou os cabelos que modela quando enjoa de si mesma. Em rigoroso silêncio, passou a língua ao redor dos lábios dos quais só os outros desfrutaram. Alcançou uma ruga que ganhou de aniversário. Quando era da mãe, ela achava admirável.

Os dedos vão e vêm sobre os pêlos. As mãos tocam o nariz querendo ser rede pro perfume dela. Ao redor da boca, recordam letra a letra palavras que a definiram no tempo. Em volta dos olhos, constroem redoma em pensamento.

Depois de se ver hoje, escolheu olhar atrás. Trinta anos em relevantes momentos. Choro instantâneo, gargalhadas no meio da noite. Os encontros e desencontros, os filmes, livros, canções, peças de um quebra-cabeça que só agora ousou montar.

Sentiu falta do olhos faiscantes que enxergavam aquarelas nos trajetos e ovelhas nos céus. O dedo desenhando seu nome com água no chão de cimento. A espera pelo prêmio. A paisagem da janela.

Viu o tempo em que passava da tragédia à comédia em um sorriso. Ser intensa era uma bandeira. Nem cansava. Ela só queria o mundo e um pouco mais. Mas o mundo andou mais rápido que ela, que foi desacelerando (mas não tanto).

Fechou os olhos pra se ver melhor. Aliviou-se ao entender que, passada a censura, superado o acanhamento, o que restou ainda é ela. É bem ela.

Há ternura também nos sonhos possíveis.
"UMA MENTIRINHA"

Nos meus textos, "ela" nem sempre sou eu.
"Reflexão
Uma pausa na canção
Recomeçar
É mudança de estação
A perda da noção
Vida em outro vagão
Uma estranha sensação
Renovar..."
"CAPA DA FOLHINHA"

Olás!

Neste sábado, 14 de março, a matéria de capa da Folhinha foi feita por mim. "Baixinhos e altões", e escrevo com conhecimento de causa. Além das crianças que são as primeiras ou as últimas da fila, entrevistei também Gustavo Borges e Daiane dos Santos, que na infância recebiam apelidos como vareta, bambu, salsichão x chaveirinho, pinguinho, tampinha. E conversei com especialistas para saber o que influencia no crescimento, quais os mitos (praticar esporte ajuda a crescer? Dormir pouco atrapalha? Quanto antes entrar na puberdade, antes a criança pára de crescer?), e como saber a altura estimada da criança a partir da estatura dos pais.

Divirtam-se!

Friday, February 27, 2009

"TÔ BETTY"

Então eu estou na moda e não sabia (porque não leio revista de moda). Ser brega por opção é ser kitsch. E graças ao seriado "Betty, a feia", a barangagem está em alta. Agora ser baranga também é ser vanguardista!
"A ARTE DA BARANGAGEM"
(27 de fevereiro de 2009)

Vocês, fiéis leitores deste blog, repararam que em todo final de texto eu dou uma barangada?

Transito bem entre as descrições, atmosferas, diálogos, humor, mas chegam as últimas linhas e a coisa desanda, sempre deixo escapar uma frase emotiva, um melodrama básico. Com o último texto, sobre o carnaval, onde parecia não haver brecha para a baranguice, não foi diferente.

Mas sou baranga assumida (assumir-se é não temer), não apenas no blog mas também na "vida real". Gosto de melodrama no cinema, choro em sarau de poesia, escuto Beto Guedes, adoro cartas de amor ridículas e tenho um lado baranga groupie que se derrete quando tocam violão pra mim (nem precisa saber tocar bem!).

Quanto ao modo de me vestir, comecei a ser brega não por opção, mas por falta de grana para escolher minhas próprias roupas. E era casaco da avó, vestido da prima que "servia direitim", sapato da tia rica... Depois continuei por comodidade, mesmo, e porque descobri as vantagens de ser assim.

Ser ou não ser baranga, eis a questão. Barangar significa garantir sua liberdade. Não há regras, tudo é permitido. O armário vira uma infinita possibilidade de combinações. Baranga não perde tempo escolhendo roupa, tem mais o que fazer. Renda combina com lycra que combina com veludo, e é sempre carnaval!

Ser baranga é muito mais econômico, as bancas de roupas em promoção parecem feitas para você. As peças pululam no seu colo (no meio da disputa de clientes à beira de um ataque de nervos) e você vai levando, sem se preocupar muito em escolher tecido e cor.

Vejam bem: há uma diferença entre a mulher que quer ter roupa de etiqueta e, sem grana, compra um "wanna be", e a baranga. A baranga é que é autêntica, não a roupa! Tá nem aí pra etiqueta.

Ser baranga é muito mais democrático, todo mundo pode ser. Não precisa gastar dinheiro se instruindo, comprando revistas de moda ou perdendo tempo reparando em vitrines.

É democrática também a mistura de épocas. Calça boca de sino, saia balonê, vestido trapézio, meia arrastão, nada é datado no estilo barango de ser. O tempo passa e a barangagem se mantém.

Baranga que é baranga nunca sai de moda (porque também nunca entra). Sempre cria roupas exclusivas (afinal, quem mais vai ser louco de usar essa combinação?) Não inventa: teima. Não desfila: aparece. E não se importa muito com a opinião dos outros, que não são chiques, e sim "um bando de fresco" (ser baranga também requer um vocabulário específico).

Então, minha gente, saiam do armário (sem perder tempo no "com que roupa eu vou"). Liberem os instintos de assassinar a moda e os criadores de vestidos a 900 reais. Carpe Diem (baranga geralmente adora aquele filme dos poetas mortos)!

Ser baranga é ser feliz.

Thursday, February 26, 2009


"OUTRAS PALAVRAS"

Neste carnaval, entre confetes e serpentinas, uma amiga me presenteou a descoberta da poeta carioca Ana Cristina César, cuja obra gostaria de divulgar neste blog.

"Acreditei que se amasse de novo

esqueceria outros

pelo menos três ou quatro rostos que amei

Num delírio de arquivística

organizei a memória em alfabetos

como quem conta carneiros e amansa

no entanto flanco aberto não esqueço

e amo em ti os outros rostos"

(em Contagem regressiva - Inéditos e Dispersos)

ANA CRISTINA CÉSAR

Wednesday, February 25, 2009

"MAIS UM CARNAVAL"
(25 de fevereiro de 2009)

O Rio de Janeiro para mim sempre foi a wonderland brasileira. No carnaval, então, faz-se mais evidente a terra da fantasia. Demorei 29 carnavais para escolher o Rio como cenário. Gastei muitos deles nas cidades mineiras onde a folia impera. Diamantina, Ouro Preto, São João del Rey, Tiradentes... Carnaval em Minas é "ótimo, apesar de BH", onde brinca-se que o carnaval mais animado é na drogaria Araújo, um dos poucos estabelecimentos abertos 24 horas nesta época do ano.

Mas este ano escolhi ir além-Minas e tudo conspirou para chegar à conclusão de que o melhor carnaval do mundo é mesmo no Rio de Janeiro (considerando-se que o meu mundo resume-se a umas cinco ou seis cidades entre América do Sul e Europa).

A relutância (ou preguiça, mesmo) em passar o carnaval no Rio vinha por achar que ele se reduz aos desfiles na Sapucaí, aos quais eu prefiro assistir do meu quarto-camarote. Mas este ano eu descobri o carnaval de rua, das marchinhas tradicionais, nada do axé e micaretas que não me agradam, nada de turistas ditando o ritmo.

Era carnaval na cidade inteira do Rio de Janeiro. Todos fantasiados, corpo e alma na folia. Caí no samba, acompanhada por uma amiga paulistana, uma mineira e uma carioca. Nas rodinhas de conversa, ficavam claras as diferentes posturas frente a um mesmo tema (no caso, o carnaval): a paulistana analisava e teorizava, a mineira contava causo e a carioca fazia piada.

Passei pela Lapa, pulei por Botafogo, dancei em Ipanema. Entre as muitas latinhas de cerveja tomadas em canudinho, a novidade culinária foi o chupi-chupi de cachaça em Santa Teresa, sabor abacaxi com hortelã porque nóis é chique. Mas nem tudo é pago: os moradores distribuíam água em mangueiras e balde, refrescando os foliões que derretiam em suas portas.

Do alto dos meus 1,50 m, não vi muito de Santa Teresa - bairro no qual pisava pela primeira vez - porque desfilei atrás do bloco (um rapaz de um metro e noventa e poucos que me tapava toda a visão e inventava o ritmo do remelexo que eu seguia, já que os tambores ecoavam bem ao longe).

As fantasias misturavam clássicos arlequins, piratas e hawaianas, passando pelos divertidos Smurf, homens vestidos de Moranguinho, Múmia (totalmente enfaixado), Mágico de Oz (os quatro: “espantalha”, Doroti de sapatinhos isopor-rubi, homem de latão e um leão desidratado sob a fantasia de lã), juntando-se a fantasias bem atuais, como a de um casal caracterizado como Marcelo Camelo e Malu Magalhães, outro de FBI e de "brasileira que fingiu sofrer agressão na Suíça-ou-Suécia", e o campeão: dois amigos, um vestido com uma máscara de Bush, da qual saía um sapato que estava amarrado à mão do outro amigo, que ao puxar o fio (como naquele brinquedo antigo) lançava o sapato e abria a cara do Bush em duas. E mulher pelada não tinha, com muita roupa tampouco.

Carpe Diem, dizia a tatuagem na nuca da garota que puxava o trenzinho de gente.


As idades eram várias. Velhinhos de cabeças brancas, testemunhas de um Rio de Janeiro terno não apenas nas letras das marchinhas. Crianças extasiadas pela vista privilegiada: esta é a única época do ano em que encontram-se cercadas por adultos fantasiados que, como eles, brincam de faz de conta.

Os blocos fecharam ruas, contornaram praias, animaram praças. Os nomes dos conjuntos causavam graça: "Suvaco do Cristo", “Xupa mas não baba”, “Se benze que dá”, “Quem não guenta bebe água”, “Vem ni mim que eu sou facinha”, “Concentra mas não sai”, “Esse é o bom, mas ninguém sabe”, “Me beija que eu sou cineasta”.

Teve até o “Exalta Rei”, bloco em homenagem a Roberto Carlos, que estreou este ano transformando o iê-iê-iê em batucada de samba. O rei, só sorriso, abriu as janelas do seu edifício na Urca para ver a banda passar. Distribuiu flores, vestido em seu terninho azul, parceiro de muitos carnavais.

A alegria do carnaval me inundou a ponto de molhar os olhos em frente ao mar, numa praia vazia, eu sozinha na avenida, vendo o sol nascer com um restinho de canção na mente e purpurina nos olhos. Não sou a primeira a dizer que, quando estamos bem conosco, mesmo sozinhas podemos ouvir um carnaval dentro do peito.

Voltei chuvosa para São Paulo, onde a quarta-feira é cinza. Mas as lembranças coloriram o caminho de volta, feito chão de confete e serpentina.